Pó



Então é este seu esconderijo?
É por estas frágeis palavras
e heroicos poemas
que se esconde o pré-homem?

Sem asas ou saltos livres
é por este precipício
que se joga a cada noite
com luzes e drogas artificiais?

Deste orifício
sem lentes
é que escande
as almas desconhecidas?

Nesta mesa
sem cores
é que cria
a suavidade da pele
que jamais tocou?

Sobre estes lençóis
de austeridade e soberba
é que se coloca
entre mendigos
de ruas boêmias?

É por este fiapo de luz
que vislumbra
seu inquestionável mundo
de criaturas repugnáveis?


Apaixonado (Desesperado)

Se seus olhos
mirassem
outros olhos
e sua alma
daquela outra
se apartasse
lindo parto
de partituras
afins
sonetos
claros
precisos
necessários.

Hiato



Dentro de mim

colho as pétalas douradas

a macela 

que embranquece

o barranco

as notas musicais 

que só eu ouço.

Renda (-se)



As rendas finas
entregues
por sonhos
de olhos abertos
procuram
por adornar.

As fantasias em pó,

levadas pelo vento,
sempre à mesa
conosco.

Sua tempestade

lavou, levou.

A ira em sua face

deformou
curvas delineadas
por poemas.

Renda-se:
a saia é rodada
o decote é redondo
mas não há sianinha.


Porém...

Que fizeste
com o teu
e o meu
porém?

Escondi uma caixa
com objetos
frases, nostalgia
embalados em
plástico bolha.

Que fizeste
com o teu
e o meu,
porém?


Poeira

Contam passos

Quem não os podem ver


Ouvem pássaros


Quem não os podem tocar


Escrevem, escrevem,

Aqueles que não podem viver.




Pesa o olhar

Quebram-se abraços

Saliniza-se tudo

Sob os olhos de Medusa.

Rastros

Você

que despetala

cores pelo caminho

A um, traços de bem-me-quer

A outro, crime

A outro, cortejo

A outro...

Não existe!



Você

cujos passos

marcam o solo

imprimem folhas mortas

afastam ramos

A um, deixa perfume

A outro, invasão

A outro, rastros de civilização

A outro,

Talvez

Não