Sonho II

Acreditava-me besouro
Ser de dura carapaça e insistência
Sem sentir choques
Sem conseguir grandes vôos.

Hoje me sei borboleta
Leve, frágil,
De brilhos e algo bela,
Vida inquieta e efêmera.

Delicada me sabes
Frágil e ágil
Com cores
Pudores e ousadia
Mas não me vês possível:
Contas o numero de montes
e flores entre nós :
Achas intransponíveis.

Vês minha beleza fugaz
E a supões superior
Ao prazer de fato.
Ainda que, de fato,
só acredites no prazer.
Subestimas o alcance de meu vôo
Acreditando que vou ao longe, não em profundidade

Enquanto isso,
Sonho quebrar as redomas em que vivemos.

Foto: Bárbara Hasse

Sonho I


Agora me resta a dúvida:
Tudo se resume à bolha
de sabão que,
tocada, estoura?
Esse cristal que nos separa,
separa também realidades
e faz seres diferentes de nós
se encontrarem?

Esta espera e este desejo
terão sido em vão?
Serão eles menores,
quando extinguirmos a distância?

Vago etérea em sua mente.
Vagas pesado e concreto na minha.

Imaginas mil sonhos meus
exceto o único verdadeiro:
Aquele em que te encontras
de olhar dócil e toque sensível
Amparando-me as patas leves
deixando libertas minhas asas.

Silenciar

Todo silêncio é feito
Do dito
Do pretenso dizer
As palavras calam
Proferidas ou não
Concluem o diálogo
Amargam a garganta por não sair
Fervilham o cérebro com hipóteses
Molestam o coração por não ter respostas.


O silêncio é amarga e fervilhante moléstia.


Foto: Edson Fragoaz

Pai, quem?

Pai nosso que deixam à terra
Caminha por entre os filhos
Incógnito, supremo, despercebido
Grande pai dos que muito alcançam
e daqueles que, deserdados à beira da estrada,
à beira do precipício meditam,
ao acostamento mendigam dinheiro, sexo
à vitrine desejam o alimento, o calçado, o vestir.

Pai misericordioso que é a razão
por que a esposa traída perdoa
o assaltado se conforma
as pastorais condenam o aborto
e confortam o estuprador
o culto acolhe o ex-gay, o ex-ladrão, o ex-drogado
e o pastor que nasceu ontem.

Pai que nos aguarda no paraíso
Tendo um porteiro, a chave e o preço
que santos, beatificados

coletam nos shoppings sacros
que a mídia agrega

pelos satélites abençoados
que apocalípticos ceifam de vidas
pelo qual os soldados em guerra matam
em continentes, oceanos
e no solo que destinou ao povo
que se divide em primitivas tribos,
paleolíticas ou cibernéticas.

Pai nosso milagroso deixado à terra
e que se revela
na loteria fraudada
na água benta
na quimio-radioterapia do câncer
e nos iluminados criadores de seitas.

Pai da terra
Onipotente-Onipresente-Onisciente
Desde que se construa o templo monumental,
que se vá ao monte,
a Aparecida
a Praga
a Jerusalém
a Meca
à merda.

Desde que se utilizem o grito estridente,
a lamentação chorosa,
o microfone
o autofalante

Desde que se abstenha
se ajoelhe
se arrependa
maldiga o passado mundano, incrédulo, cético.

Pai nosso que está em algum lugar, algum elemento
Pai nosso que saiu da nave ou do ventre virgem
Pai nosso que não se sabe a face...

Quem é esse deixado à Terra?

Exatidão de coisas

Sem tempo...

Oi sem bom dia ou boa noite...

Tempo fixador e apagador

Tempo centro da eternidade

(como tempo e espaço são grandezas diferentes,

não há centro espacial para a Eternidade...

há o tempo centro-centrifugador de tudo).

Sendo o tempo contínuo,

como a luz - se onda,

Sim, é eterna a luz do abajour,

assim como é eterno o erro

(fixado pelo tempo,

esquecido pelo tempo),

é eterno o último segundo que dedica.

À sua casa

Minhas memórias abrigam
o esgalhado caminho
para se chegar à sua casa.


Galhos secos, troncos
debruçados sobre a água.


Não vou só.
Equilibrando-se no caminho
de sombras
vem meu amigo:


Seus olhos luzem
Seus passos são certeiros
O corpo alvo e delineado
suaviza o olhar crítico
e a personalidade franca.


Caminho por entre os galhos.
Dirijo-me ao tronco
que é a entrada
mas não a vejo.



Caminho e chego ao quarto.
Suntuoso, quinquilharias,
tapete estampado
do século passado.


É grande tudo,
mas cabem no tronco sem porta.


O corredor de quartos
É vazio, escuro.
Suntuoso, quinquilharias.


O quarto está reservado
e nos espera.


A sala é grande
Moderna
Desabitada.


O quarto nos serve
ao amor
A sala sozinha
recebe sua dona:
Sorriso dona de casa
Anfitriã convenientemente satisfeita.


Saio para o mesmo galho
Do mesmo tronco
Sem porta
Sem escala para o
Tronco diminuto
Com a casa dentro


Fora é tão sombrio
Frio
Quanto dentro


Os braços brancos
Delineados
Fortes
Amparam



Tudo é silêncio, cumplicidade,
Sombrio
E necessita de equilíbrio
nos galhos.
Sem explicação para as dimensões.






[:o]

Minhas mãos se esqueceram do que a tia ensinou: com quantas voltas se faz o A, quantas montanhas compõem o M e quantos laços tem o F.

Como poderei lhe escrever?

Minhas mãos agilmente se deslocam no teclado e os dedos têm a elasticidade que braços e pernas invejam - jamais me viu a academia de ginástica!

Meus olhos brilham e ardem para as estrelas, pois o monitor muito lhes exige.

... Envio-lhe, então, esta mensagem eletrônica – com assinatura digital, criptografada – para que não pense que me esqueci de seu aniversário.