Palavras vãs

Apaixonar-se por palavras
É paixão mais vã
Enquanto deliramos
Somos colocados no divã

Nossas confissões são escandidas
Em mil versos não ritmados
Seguros e fiéis sonetos
Partidos em estrofes oníricas

Nossas odes impulsivas
Rotuladas em acadêmicas
Escolas psico-literárias
em fases de sim, talvez e não.

Embelezam o fundo
Palavras traiçoeiras
Que enganam o leitor
- Não menos que o criador
.













Foto by Daniboy

As poucas coisas detestáveis...

As poucas coisas detestáveis

Enfileiram-se atrás de ti

Fazem de tua sombra escudo

Fazem de teus lapsos frestas

Para observar

Para manifestar...

Foto by Wagner Campelo

Sarau

Como se declamássemos
De nós
Entre nós
Nos mostramos
Às vezes sós
Às vezes pós

A platéia muda
Ou em aplausos
Não absolutamente convencida
Não mudamente reprovando.

Em tudo há pelo menos
Uma guanina
Uma citosina
Em sequência correta
Em concordância com
Nossos passos
Nossos passados.

Valham-nos todos
Valham-nos partes
Pois os poemas são vividos
Pois nos traduzem.

Criação

Traduzir-se em signos
Em língua pensamento - vil
Em língua falada – torpe
Em língua vocábulo – como?

Signos significados símbolos
Intérpretes
Dicionário dissonante
Discrepante

Bailam palavras e sons
Máscaras ocultas incultas
Peixes voadores em saltos
Caíram no barco – diálogo.

Chuvas torrenciais
Granizo esparso – parcos
Distribuição aleatória

- Em areias de cães selvagens
Pássaros livres são os mais bem quistos.
E melenas valem uma batalha.

Palavras, palavras
Vil, torpe, como?
Bailam, bailam, bailam...

Gravimetria?
Ausência de balança
- Língua essa traga!

Palavras, palavras
Signo símbolo som
Surdo mudo cego
E a língua pode ser qualquer.


Fonte Inesgotável!

Quanto mais se me pede
Muito mais me dou
Pois a fonte não seca
Não é a fonte do que se dá
É a fonte do dar-se.

Dou-me ao despedaçado passado
Ao obscuro futuro
Ao acaso desacreditado
Ao infrutífero florir
- Dessa flor não se terá fruto
- Dessa batalha não existirá vencedor

Nem eu que me dou – sem fonte
Do que, inesgotavelmente, dou
Nem do ovário floral infértil
Nem o soldado a lutar contra
O vento que traz dentro de si.


Revoada

Tudo salpica, pipoca,
Delírios vários,
Colméia em ataque,
Zumbidos...

Silêncio – com fumaça
se acalmam as abelhas...

Revoada de inverno
Coreografia instintiva
Profusão medonha!

Laço, alçapão:
Algumas se agarram.

Hierarquia, metodologia,
Intuição, telepatia.

Organiza-se
Sistematiza-se
A sintaxe e a morfologia.

Por partes


Aquelas mulheres se escreviam
Por retalhos.
Que é isso – apropriar-se
De pedaços de outras vidas
Para compor a própria?

As partes se costuravam
E as vidas também.
O suor umedecia a parte
Já umedecida pela lágrima
De outra.

Se iam à mesma linha
Ora se cruzavam
Oras se arrematavam
Pois partes mal alinhavadas
Tinham também.

Da tesoura
Que servia a dois cortes
Ao tecido sem avesso
Por vezes duas
Tinham o mesmo nó.

Da estampa inglesa
À torre francesa
Uma noite, uma mão
Pares de olhos e ouvidos
Antes que o sol nascesse.

No âmago encontra
Abrigo certo
Entre todos os retalhos
Há o de flores que
Fazem a torre
Mais iluminada.

As linhas mal alinhavam
Os nós não se apertam
A luz está lá, no alto, nas flores
De partes de outras
Se monta uma vida.

Encaixam-se por tema
Por cor, arremates,
Caseados
Em sentido horário ou anti
A base para dentro
De cada autora.