Salvavidas

Para esta classe tenho
o correto envelope:
guardo
dobro
colo
Lanço à decomposição ou às chamas
A indignação
a decepção
a tristeza
não há chama que consuma
ou bactéria que degrade.
Assombram eternamente
veneno que se injeta nos olhos.
Eles se inundam
e não sabem nadar.
Cápsulas absorvem
a inundação,
a indignação
a decepção
e a tristeza.
Mas não fecham as portas dos sonhos
Nem as sentinelas de desconexos

fragmentos de pesadelos.


Sublima!

Falar-lhe não posso
Confessar-me não devo
Vê-lo enjaular-me-ia
Ouvi-lo embriagar-me-ia
Sublima, imagem, verso!

Sublima...
Coração com feridas!
Esta alma está farta
Do que falta.

Conjecturas, hipóteses, teorias
Tudo está nos fios,
nos arquivos, nas mentes
... E não fazem efeito
... E esquivam-se do sentido.

Um cigarro:
Desfaça-se na fumaça tudo,
Aspirando até o último pedaço de fumo!
Esgote-se tudo que não foi vivido
Esgote-se todo verso lido, escrito, pensado.

Uma dose
No amargo
No ardente
Sinta-se de uma só vez
Todo o sabor que devia ter.

... Sublima!


Mais um

Cativo de palavras
Entenderá meu silêncio
Amante da chama,
Do sangue e das trevas,
Acolherás minha luz límpida
De alvorecer em tons solares

Esperamos mais
Que a maturidade do vinho
Após o prato sofisticado
Como se afinidades
Fossem avalistas
Daquele cheque sem fundo

Todo o cenário
Trilha sonora
Incenso e mirra
Estavam guardados
E, na caixa, escrito:
“Achados e perdidos”

Perdidos no tempo
Pelo desmerecimento
Pela indiferença mútua
Pelo receio duplo

Achados na oportunidade
Pela semente plantada
Pelo espelhamento da alma
Pelo desejo recíproco.

Decadente

A lua cheia brilha, convida
Ignoro, desconvidada
- À festa só aos pares!
Às mil estrelas cadentes
Que só eu vi,
Deitada naquele pedestal
Com as garrafas se congelando,
Fiz mil pedidos...
Não me acreditaram
Nem os ébrios
Nem as estrelas.

"E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços -
Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos."
(Solitário – Augusto dos Anjos)



Sou, vejo

Quando vejo o espelho
Vejo se passar uma cena...
Paro.
Congelo a cena.

Há uma projeção de muitos espelhos
Há uma mistura de muitas culturas
Há a unificação de contradições
Em um único ser
Há o resumo de séculos de segundos
Num único instante em que me olho.


Vá num suspiro

Desejo que te vás rapidamente
Sem dores ou alarde
Num suspiro apenas
Como fez a Sinhá

Não te demorarás
- Tenho certeza de que vigias a porta
E estás, a todo momento,
Buscando que eu pisque
Ou pisquem
Os olhos despercebidamente
Para abandonar-me.

Acompanha-me a certeza
De que curto é nosso trajeto
Desde meu nascimento:
Sei que estás assim, mãos
Dadas por apenas dedos,
Fraco laço.

Mas adoraria que me deixasses
Em momento de maior lucidez
Que agora
Quando vejo e ainda desejo
Sua presença, insanamente.

Deixe-me sem arroubos,
Sem doenças crônicas,
Sem intervalo para sofrimento
Sem lamentações
Sem noites de vigília
- Somente vá, num suspiro.

Vida minha,
como se dá à vizinha
Bom dia
Boa noite
- Somente os cumprimentos...
Se vá sem alarde, cedo,
Sem doença, sem medo...
Somente um suspiro.

Voa, voa...

Os versos com parcimônia
Desfilam nas linhas
O garoto que nunca se foi
Faz mais uma travessura
Rouba-me a revoada
Em que andorinhas
Dançavam para viajar ao norte.

De longe, se ri
Desdenha e desconhece.

Fazer da ignorância
Essência de felicidade
É bem comum.
É ela sequaz da Loucura
E que frutos dá esta,
Senão a felicidade
Dos que assistem ao espetáculo,
Dos que ignoram?

Se todo desconhecido
É ciência
É medo
É Deus...
E traz felicidade...
Ando rota, quixotesca, atéia,
Troglodita, sã, sóbria...
... E nem tenho andorinhas
Para evadir-me.