PhD

Vejo tua sombra:
Enxergo através da lente
Tua alma sedenta de amor
E de holofotes.


Observo tuas pegadas...
Detecto aquelas cambaleantes,
Que tua pretensão e arrogância
Apagam todos os dias
Para acreditares
Que a perfeição tem teu nome.

Minhas humildes eloqüências
São pirita
Enquanto és a pedra filosofal.
Até teu Deus é mais santo
E conversa contigo todos os dias,
Em horário e sotaque britânicos.

Pela Lei da compensação
Tua estatura é menor
Que teu ego.
Pelas leis do destino
És meu karma
Minha cruz

Pelas leis da eletrostática
Nos atraímos
Sem fusão.
Sem que nenhuma lei
Ordene, limite, obrigue
Estás no meu caminho.

O raio que caiu no campo
Queimou, fundiu
Deixou tua marca.
Estás lá,
Quando olho para trás
E não sei se és passado
Ou futuro.



Propaganda Enganosa



Preciso gritar por todos os microfones:
Não há genialidade, não há sequer criatividade!

Preciso que todos os ouvidos ouçam:
Não há amor, não há sonho, sequer cumplicidade!

Finas fibras óticas
Transportaram mentiras,
Comeram cada pedaço de carinho
Queimaram todas as pontes

... E nos fizeram invisíveis.


Lugar de coisas

Decorei um oratório
com ladainhas em versos,
cores de Munch, Portinari.
O altar, puro e simples
banco de praça.
Praça de calçadão beira-mar,
Praça de igreja de cafundó.

Flores, muitas!
Deste cerrado tortuoso,
da planície alagável,
Singelas, sinceras
- Recebidas ásperas.

Canções
Entoadas em ritmo ancestral
Histórico, nostálgico,
Sem sons, por memórias
Repertório acadêmico-juvenil
- Às vezes rechaçado.

Troquei seu merecido lugar à prateleira
Pelo assento sagrado,
Tamanha minha satisfação,
meu deslumbramento.
Quiçá por isto o monstro
Superou o médico.


Foto by inatangle

Ante a vidraça

Meus pensamentos

Telefone.

Ainda vão de encontro aos seus

Como um diálogo

Zunir da moto.

Em que não se ouve a resposta,

Mas se formula a pergunta...

Acreditando que a imaginação

Quebra a parede e emite sons.

Acelera o automóvel.

A continuidade de todos os temas

Nunca foi interrompida

O filhote pardal pia pelos pais.

Se perpetua em poemas não declarados,

Nas inspirações não confessadas.

O bando de bicos-de-lata está no jardim.



Foto by GenkiGenki

Valsa

Baile comigo
Toque minha cintura
Que se revolve, contorce
E deixa perdida tua mão.

Rodopie no maior agudo
Receba a mão e o corpo
Que já suam, quentes
Para juntar-se ao seu – frio.

Com o pé pisoteado
O músculo posterior distendido
A cabeça em rotações
E a cadeira necessária.

Encerra-se o baile
A sedução
O cavalheirismo
E a pretensa liberdade
Dos corações em seresta.



Foto by Alves Filho


Sem asas

A poltrona estava vazia.
À esquerda, minha companhia.
À direita, um terno cinza ofegante, um celular negociante.
Pode a vida se resolver entre o guichê do raio x e o portão de embarque?
Penso que não e o suor no colarinho inquieto me irrita. Desvio o olhar, evito.

Cada personagem desenvolve seu papel, tem seu figurino, suas armas.
O cenário é vasto e eclético: plumas e pelúcias cor de rosa saltitam, esperneiam, fazem chantagens emocionais com sobrancelhas franzidas e lábios em bico. Os dragões, flores e caveiras soltam-se ao chão com mochilas, aparelhos audiovisuais, displicência e mil etiquetas em todos os acessórios. O crachá traz o micro portátil, livros, resumos, anais, camisa social falsamente elegante, olhar concentrado na última e maior novidade científica do mundo.

Há saltos finos.
Prezam-se pelo barulho, como um clarim anunciante, ordem para o desenrolar do tapete vermelho, para as falsas pérolas, roupas exóticas e poses para possíveis câmeras.
O medo se esconde em mãos que se apertam, esmagam objetos, nas unhas lascadas ao dente, nos olhos assustados, no cubo indecifrável.

Cheiro de café.
Café, chocolates, balas, chicletes, maquilagem 24 horas, solicitude e conhecimento escasso. José o quê? Pergunte àquele rapaz ali, ele conhece melhor o acervo!

Negativo. Nem acervo, nem conhece.

Em última instância – e fuga dos comentários do último pum da ex- BBB enésima edição – decido-me pela capa leve, colorida, ilustrada, ares de museu de obras raras. Azul. Três autores e uma escritora. ONG.

... As crianças na Europa teem mais dinheiro e mais madrinhas, mais livros. Meio a contragosto – por que não pensamos nisso? – cedo à única maneira de ocupar o intervalo.


Foto by Simone Sattler

Sabes?

Não somos
Sonhamos à lua
Deliramos ao sol
Entorpecemos (nos)

Não sei
Não somos
Delirei à lua
Sonhei ao sol
Embriaguei (me)

Não sabes
Não somos
Acordaste à lua
Desmaiaste ao sol
Intoxicaste (te)

O silêncio
E as palavras
São coniventes
Com todo nosso infortúnio
Com todas as nossas dúvidas.


Foto by miki:persona