Ante a vidraça

Meus pensamentos

Telefone.

Ainda vão de encontro aos seus

Como um diálogo

Zunir da moto.

Em que não se ouve a resposta,

Mas se formula a pergunta...

Acreditando que a imaginação

Quebra a parede e emite sons.

Acelera o automóvel.

A continuidade de todos os temas

Nunca foi interrompida

O filhote pardal pia pelos pais.

Se perpetua em poemas não declarados,

Nas inspirações não confessadas.

O bando de bicos-de-lata está no jardim.



Foto by GenkiGenki

Valsa

Baile comigo
Toque minha cintura
Que se revolve, contorce
E deixa perdida tua mão.

Rodopie no maior agudo
Receba a mão e o corpo
Que já suam, quentes
Para juntar-se ao seu – frio.

Com o pé pisoteado
O músculo posterior distendido
A cabeça em rotações
E a cadeira necessária.

Encerra-se o baile
A sedução
O cavalheirismo
E a pretensa liberdade
Dos corações em seresta.



Foto by Alves Filho


Sem asas

A poltrona estava vazia.
À esquerda, minha companhia.
À direita, um terno cinza ofegante, um celular negociante.
Pode a vida se resolver entre o guichê do raio x e o portão de embarque?
Penso que não e o suor no colarinho inquieto me irrita. Desvio o olhar, evito.

Cada personagem desenvolve seu papel, tem seu figurino, suas armas.
O cenário é vasto e eclético: plumas e pelúcias cor de rosa saltitam, esperneiam, fazem chantagens emocionais com sobrancelhas franzidas e lábios em bico. Os dragões, flores e caveiras soltam-se ao chão com mochilas, aparelhos audiovisuais, displicência e mil etiquetas em todos os acessórios. O crachá traz o micro portátil, livros, resumos, anais, camisa social falsamente elegante, olhar concentrado na última e maior novidade científica do mundo.

Há saltos finos.
Prezam-se pelo barulho, como um clarim anunciante, ordem para o desenrolar do tapete vermelho, para as falsas pérolas, roupas exóticas e poses para possíveis câmeras.
O medo se esconde em mãos que se apertam, esmagam objetos, nas unhas lascadas ao dente, nos olhos assustados, no cubo indecifrável.

Cheiro de café.
Café, chocolates, balas, chicletes, maquilagem 24 horas, solicitude e conhecimento escasso. José o quê? Pergunte àquele rapaz ali, ele conhece melhor o acervo!

Negativo. Nem acervo, nem conhece.

Em última instância – e fuga dos comentários do último pum da ex- BBB enésima edição – decido-me pela capa leve, colorida, ilustrada, ares de museu de obras raras. Azul. Três autores e uma escritora. ONG.

... As crianças na Europa teem mais dinheiro e mais madrinhas, mais livros. Meio a contragosto – por que não pensamos nisso? – cedo à única maneira de ocupar o intervalo.


Foto by Simone Sattler

Sabes?

Não somos
Sonhamos à lua
Deliramos ao sol
Entorpecemos (nos)

Não sei
Não somos
Delirei à lua
Sonhei ao sol
Embriaguei (me)

Não sabes
Não somos
Acordaste à lua
Desmaiaste ao sol
Intoxicaste (te)

O silêncio
E as palavras
São coniventes
Com todo nosso infortúnio
Com todas as nossas dúvidas.


Foto by miki:persona

Olhos

A certeza dos olhos verdes
É uma memória longínqua
- Dessas que não se sabe mais
Se sonho ou fato

Se aqueles olhos fossem verdes,
Azuis, mouriscos, turcos,
Sentir-me-ia feliz

Se aqueles olhos tivessem o negro profundo
E inatingível de seu mistério,
Sentir-me-ia feliz

Que diferença faz a cor dos olhos, se quem amo não tem cor?



Foto by Genki

Dia improvável

No dia improvável,
Recebi seus agrados
Sorri abertamente à música romântica e maldizente
Li suas confissões
E acreditei que eram unicamente para mim.

No dia improvável,
Recebi visita inesperada
A chuva foi refrescante
E lavou minha alma
Como as três puras palavras,
Recebidas como presente por criança.

No dia improvável
Contei quantas metades de livros li
E soube a razão de não ter lido as outras metades
Coloquei em exposição as capas daqueles
Que ainda não leio

Não é hora
Com a certeza de que terei
Um dia improvável
Para sorrir de todas as metades não lidas.

Minha alma é grande
E não cabe nos livros
Nas telas
Nestas quatro paredes.

Foto by Kyle May

Surpresa!


Você vende em versos seu mais novo espetáculo...

Não creio.

É nova arte, habilidade desconhecida

Mas seus olhos brilham

E desafiam minha incredulidade,

o cenário popular e pouco afeito a seu refinamento.

Sim, afirmo e asseguro minha presença diante do palco...

Não me fará mal lhe dar mais este voto de confiança...

... Afinal, seu delírio pode ser maior que o meu.


Foto by ^Diana^